“TODA A TERRA TEM UM NOME, É PRECISO ANUNCIÁ-LO”, ENTREVISTA A WELKET BUNGUÉ

“TODA A TERRA TEM UM NOME, É PRECISO ANUNCIÁ-LO”, ENTREVISTA A WELKET BUNGUÉ

“Durante a minha estadia em Cabo Verde, percebi que o território era altamente fotográfico e “romanciável”, por isso peguei na câmera e filmei. Filmei três filmes, que compõem um tríptico focado nas paisagens, nos contrastes visíveis em termos de recursos e de (des)ordenamento urbanístico, e por último nos diversos subtemas que me importam refletir durante estes processos espontâneos de filmagem em viagem. 

O cinema exódico de Hito Steyerl é não só uma estética mas também uma metodologia que influencia as decisões performáticas-técnicas que assumo durante a captação e concepção de significantes contidos nas imagens das quais resultam os três filmes: ‘Kau Berdi’, ‘Ex Explorador Exproriador’ e ‘Metalheart’. Chamei a este tríptico CARBONO, em homenagem a esse elemento químico etéreo e que tem aumentado na atmosfera ao ponto de também nos condicionar a vida na Terra, não apenas como seres viventes mas também como seres de habituação que somos.”

Welket Bungué

Link : https://youtu.be/h4SBdGP0D9s

ML – Como chegou à composição do tríptico Carbono?
WB – Este tríptico foi impulsionado pelo desejo de criar matéria fílmica em território africano. Tal sentimento surgiu igualmente quando estive na Guiné-Bissau entre maio e junho de 2019.

Há um pendor ensaístico nos seus filmes que se alimenta de espontaneidade e performatividade. As ideias surgem por um olhar curioso de viagem que vai costurando sentidos.

Enquanto performer, o meu estilo de captação depende muito da minha percepção do espaço e das suas condicionantes através do filtro mecânico que é a câmara de filmar. Por causa disso, é necessário recriar uma linha (a)narrativa posterior à captação das imagens, porque os sentidos imanentes à minha concepção política e humanista de mundo e sua organicidade determinam os tópicos em foco no filme que se começa a montar/editar na fase de montagem. Os três filmes são particularizados pelos lugares distintos onde captei as imagens, isto é: no Mindelo, rota turística de Praia a Tarrafal, passando por Assomada e, por último, os Bairros de Eugénio Lima e Praia Quebra Canela (em Praia, Ilha de São Vicente).

Cabo Verde romanciável em que sentido?


Cabo Verde é romanciável por ser sobretudo uma cultura flutuante, do ponto de vista nativo-cultural. Imagine-se sendo “atlântico” e não africano, ou vice-versa. O que quer isso dizer? Melhor, o que mais se pode querer ser para além de uma destas duas definições?Por um lado, evitam a hereditariedade colonial, no sentido da história regida pelo ocidente, mas por outro – uma vez sendo “atlântico” – impõe-se essa auto-definição de origem “galáctica” ou territorialmente emancipado em relação à historicidade do povo africano continental. Bom, por todo este polvilhar de possibilidades, já vale a pena ir a Cabo Verde e filmar a sua gente e a paisagem gritante, denunciante desta indefinição que liberta mas também não cristaliza cultura nem a identidade de forma autóctone.

Porquê Carbono como título da trilogia?


O título surge em homenagem a esse elemento químico etéreo, o CO2, e que tem aumentado na atmosfera ao ponto de também nos condicionar a vida na Terra, não apenas como seres viventes mas também como seres de habituação que somos. Por este título pretendo que se reflita também sobre os efeitos causados pelo excesso dessa matéria no ar, isto é, do carbono, mas também que se associe esse elemento ao capitalismo predatório que, indireta ou diretamente, afeta a paisagem de territórios que vão revelando indistintamente as diferenças abismais que estratificam a sociedade, globalmente falando.

Como entende a conexão entre ‘Kau Berdi’, ‘Ex Explorador Exproriador’ e ‘Metalheart’?

Vejo como pequenos documentários experimentais, que compõem um tríptico focado nas paisagens, nos contrastes.

Que contrastes pretendeu assinalar nestes filmes?

Link: https://youtu.be/Js2F_YjJvkM
Nos contrastes visíveis em termos de recursos e de (des)ordenamento urbanístico e, por último, nos diversos subtemas que me importam refletir durante estes processos espontâneos de filmagem em viagem.

Que cineastas o inspiram?


Neste caso, o cinema exódico de Hito Steyerl que é não só uma estética mas também uma metodologia que influencia as decisões performáticas-técnicas que assumo durante a captação e concepção de significantes contidos nas imagens das quais resultam os três filmes.

Kau Berdi faz uma inscrição poética, “Toda a terra tem um nome, é preciso anunciá-lo”. Como pode a poesia visual traduzir este território?


A poesia visual deste filme-ensaio almeja recordar uma imagem cartografando um território pré-colonial, não apenas de Cabo Verde, mas também do território africano investindo no recorte de paisagens verdejantes, ricas e colossais e que evidenciam a riqueza vital e paisagística que só África, na sua inocuidade natural pode proporcionar.  O título ‘Kau Berdi’ vem do crioulo, e significa ‘Terra Verde’.

Ao mesmo tempo prescinde da palavra.

No entanto, gostaria de prescindir da palavra, mas o “cinema de africano” impõe a necessidade de imprimir literariedade às mensagens, sejam visuais ou aparentemente narrativas, de maneira a garantir que na pós-contemporaneidade haja um lugar de potencial interesse de pesquisa crítica, académica, literária, política atrelada ao consumo do filme (peça artística). Digo isto porque se a imagem é potência, uma vez que fixa e revoluciona pela multiplicidade de interpretações que se inocula no sentimento humano, já a palavra irá fixar problematizando, porque está veiculada a uma ideia de linguagem de dominação e de autoridade – isto é, porque só escreve e fala quem é soberano no sentido da legitimação social-política. Por isso, tenho de escrever, inscrevendo a palavra como elemento poético pela forma que assume, mais do que propriamente pelo seu significado. Acredito mais na comunicação do filme, na sua plenitude, do que na minha proposição poética-literária que sobrepõe ou complementa a imagem. Pretendendo eu que o lugar, o tempo e as pessoas ali captadas, não desapareçam ou sejam apagadas salvando-as do que aconteceu em muitos dos lugares que visitei e escolhi mostrar no filme ‘Kau Berdi’.
 

Como vê as relações históricas e simbólicas entre Cabo Verde e Guiné Bissau desde a luta pela independência?


Esta luta conjunta foi contra as forças do domínio colonial exercidas nesses dois países, isto é, a colonização portuguesa. A luta de libertação uniu ideológica e culturalmente os dois povos (GB e CV). Porém, a meu ver, não foi completamente bem sucedida no seu desejo de consolidar genuinamente a “união” dos dois países-Estado no sentido político e de desenvolvimento colaborativo, com a mesma intensidade com que o desejo de libertação havia inspirado uma atitude fraterna e combativa visando uma ideia de comunhão bilateral mas soberana perante África e o mundo ocidental. Hoje, estas relações devem ser sanadas primeiramente no seio dos povos, e especialmente entre os territórios, e ainda sob um escopo internacional — as políticas de cooperação têm de ser revistas e dignificadas com maior equidade face às necessidades vigentes.

O que sentiu e quis contar através da visita à Casa de Amílcar Cabral, em Achada Falcão?


Era preciso particularizar de modo a fazer valer um arquivo onde constasse o nome dessa figura incontornável no levante pan-africanista, naquelas que foram as dissidências ideológicas que levaram à libertação de Guiné-Bissau e Cabo Verde, mas também para observarmos o estado do património dos líderes simbólicos da cultura africana, cuja memória, em muitos casos, deve ser reavaliada e melhor estimada.

Na sinopse de Metalheart pergunta: “Quem são os confinados/as, quem decide quem pode entrar e fazer parte ou não?” Como vê o confinamento em certos lugares do mundo?


O confinamento tem vários aspetos de entendimento, que dependem da percepção de quem o vive ou o impõe. No caso de ‘Metalheart’, que deverá estrear este ano na Bélgica no 24º AFRIKA Filmfestival, o confinamento de que simbolicamente falo tem a ver com as fronteiras impostas por nós, países/povos ocidentais a determinados grupos/comunidades e ao mesmo tempo como nos comportamos enquanto privilegiados que somos, beneficiando do direito e da legitimação/autorização para viajar e transitar na maioria dos países extra-Europa sem sequer considerar que podemos estar a contribuir para a alienação cultural daqueles povos/territórios.

Como funciona a metáfora do ferro-velho do barco?


O filme mostra o “sepultamento” de uma enorme placa metálica, o resto de um barco, que foi deixado na costa de uma praia com entrada por um pontão que liga a um ferro-velho murado por mais chapas de metal. Nessa situação vemos uma caterpillar entrar na água, e arrastar essa estrutura metálica “afogada/afundada” às portas da praia para esse cemitério de ferro, e vemos pessoas à assistir em terra. Associei este ato à chegada dos barcos carregados de solicitantes de refúgio que se avistam diariamente às dezenas, nas zonas costeiras da Europa. 


Conte um pouco sobre a sua produtora Kussa…


A Kussa é liberdade, vida e trânsito. O meu irmão Welsau está baseado em Paris, e eu vivo presentemente em Berlim. Sempre que viajamos procuramos elementos que possam substanciar uma história nova e assim vamos realizando novas e interessantes colaborações com locais, ou com artistas que já fazem parte do nosso leque de clientes habituais, em sua maioria, músicos.

Fonte: BUALA 

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