O escritor português MÁRIO MÁXIMO, escreveu sobre os “ESCRITOS NO SILÊNCIO” de Carlos Vaz

O escritor português MÁRIO MÁXIMO, escreveu sobre os “ESCRITOS NO SILÊNCIO” de Carlos Vaz

Trata-se de uma opinião de alguém, que se dedica à análise e a critica literária, com inúmeros livros publicados e participações dispersa de autoria em Jornais e Revistas.

LEIAM a opinião deste poeta, romancista, dramaturgo, ensaísta literário, cronista, guionismo de televisão e economista de profissão; que foi o principal impulsionador da criação da BIENAL DE CULTURAS LUSÓFONAS no Centro Cultural Malaposta, em Odivelas.

“ESCRITOS NO SILÊNCIO de Carlos Vaz

Este livro veio ter comigo. Não direi “Cruzou por mim, veio ter comigo numa rua da Baixa…” (como poderia dizer Álvaro de Campos), mas digo que veio ter comigo através do rumo surpreendente das coisas que acontecem no mundo.

A voz de um amigo, falando de Carlos Vaz e de suas obras literárias. E dizendo que seria bom que eu me debruçasse sobre os textos de alguém que tem história. Alguém que atravessou mundos e situações onde a história morou e criou raízes. E há lugares da história onde as raízes são de uma importância tremenda.
Quando o livro me chegou às mãos gostei da singeleza e significado da capa bem como do título.

Começo pelo título: Escritos no Silêncio. Sim, é sobre o papel do silêncio que se escrevem os gritos maiores. E a tinta dos gritos muitas vezes é da cor do sangue e, outras vezes, é da cor da revolta e/ou da fé num mundo melhor. A foto que dá corpo ao título é a de um menino a receber um beijo devotado de uma menina. Uma menina entregue ao seu beijo de inocência e ternura e um menino aceitando, incrédulo, uma dádiva que pelo seu olhar deveria ser da dimensão do mundo. Há ligações afetivas e familiares na foto em causa que aqui não irei referir mas que tornam a foto ainda mais envolvente.

O prefácio de Escritos no Silêncio é um prefácio com saber de experiência feito, assinado pelo Dr. Leopoldo Amado. Palavras estruturadas e onde se encontram alguns dos fios da obra prefaciada. E cito Leopoldo Amado: “Carlos Vaz não é, definitivamente, um daqueles autores que dão a imagem torpe de um lorpa que apenas vê como param as modas. Não é também, em definitivo, daquelas almas paradas, melancólicas ou desistentes.

É, pelo contrário, uma alma irrequieta…sem nunca perder a esperança de uma Guiné-Bissau próspera”. Concordo com estas e todas as outras palavras do prefaciador.
Em dezembro de 2016 Carlos Vaz redige o seu texto introdutório. É um texto relativamente longo onde o autor se entrega às razões da sua escrita e do seu pulsar interior. Aí ficamos a perceber que Escritos no Silêncio se trata de uma coletânea que percorre algumas décadas onde a sua vibração pela história e pela vida iconoclasta se decompõe.

Na verdade, uma obra poética é sempre uma obra de decomposição do autor. Não vou falar dos rumos históricos e das dificuldades encontradas – quer antes da independência quer depois –, optarei por sublinhar uma citação que Carlos Vaz nos entrega, citação de uma personalidade de referência da política africana. Cito: “Quando os brancos chegaram, nós tínhamos as terras e eles a Bíblia; depois eles nos ensinaram a rezar; quando abrimos os olhos, nós tínhamos a Bíblia e eles as terras”.

As palavras citadas são de Jomo Kenyatta.
Escritos no Silêncio é uma viagem. Uma viagem que representa um roteiro de vida mas que, ao mesmo tempo, representa um roteiro de duplo significado: filosófico e poético. São as seguintes, as partes que constituem o livro: “O despertar da poesia”; “As minhas iras em forma de libelo”; Consciência Nacionalista”; “O Êxul”; “O Protesto” e “Liberdade, Amizade, Paixão e Amor”. Há neste trajeto uma evidente navegação. Um andar sobre as ondas alterosas da vida que procura o seu próprio sentido.

Carlos Vaz não para. Ele vai da sua Guiné a Portugal, ele vai a cabo Verde e à Suécia e, depois, vai efetuando regressos e novas partidas sempre com uma preocupação em mente: sentir a vida, o amor e a justiça.

Em Escritos no Silêncio o autor empreende uma viagem navegante, uma viagem sobre ondas e marés oceânicas de literatura. Uma viagem onde os sentimentos nunca se entregam mas que anseiam um porto de abrigo. A poesia é o melhor e o mais perigoso porto de abrigo. Nos poemas de Carlos Vaz vamos dos descobrimentos à colonização; Da luta de libertação à primeira independência (a independência de Madina do Boé: a única independência formal – parcial, é certo – de uma colónia portuguesa antes do processo revolucionário acontecido em Portugal, a 25 de abril de 1974, que gerou o processo global de descolonização. Claro que sempre no contexto de um quadro de luta revolucionária pela libertação do jugo colonial e não esquecendo que o Brasil já se tinha independentizado nos tempos recuados de 1822); da independência da Guiné Bissau passando pelo êxtase do exercício do poder legítimo e confinando no novo drama da violência entre irmãos; As guerras intestinas, algumas em surdina mas outras em dolorosa violência.

Da ausência de liberdade do mundo colonial para a ausência de liberdade após a independência. As perseguições, os arremedos de democracia; a corrupção e o narco tráfico, as novas perseguições. E a esperança?
Sim, a esperança está sempre na linguagem poética de Carlos Vaz. Os versos de Escritos no Silêncio são versos que iluminam um trajeto de esperança. Quando se revoltam, quando se inebriam com as vitórias históricas, quando voltam a revoltar-se e quando o erotismo e o amor tomam os sentimentos.

Ao falar de esperança Carlos Vaz fala, é claro, de liberdade. A liberdade que só é inteira quando junta a liberdade interior com a liberdade política e social. E a liberdade interior é a liberdade dos versos, uns a seguir aos outros. A linguagem da liberdade é, por natureza, a linguagem dos versos e da poesia.

O trajeto de Carlos Vaz é exemplar no magistério da diferença. Até no seu próprio trabalho literário pois é um trabalho multigénero. As suas peças teatrais fizeram história quando a história se escrevia na Guiné Bissau com letras de libertação. Delas não irei falar. Hoje trata-se dos poemas escritos entre 1973 e 2015. Entre essa estrofe que nos diz:
“…Enfim,
O poeta finge para encobrir o seu desencanto,
O que sente no seu âmago,
Para não ver as atrocidades
Que os seus olhos testemunham
Sem nada poder fazer,
Porque é a lei do mais forte que vigora.
Impotente? Sim!

O poeta finge, para acalentar a sua alma,
Acreditando que amanhã
O seu sonho de um mundo mais Humano
Será uma realidade”
E uma outra estrofe que refere, no lindíssimo poema titulado de A Paz:
“…Sozinho, olho para a ribeira de Quinhamel, contemplo, a exuberante beleza natural
Que Deus nos prendou como guineenses
E sinto um tamanho sossego
E tranquilidade…

…Mas a sinfonia dos pássaros desperta-me
E apercebo-me do convidativo silêncio
Do encanto e recanto à frente da minha retina.
Deixo-me levar de novo pelo pensamento…

Se não fosse a nossa fragilidade
Em extorquir o outrem,
Não aceitar o contraditório,
Um Dia, os guineenses
Podiam brindar uma Paz duradoura.
Tira-se o exemplo,
Desta inconfundível bonança natural!”
Escritos no Silêncio é um livro de poemas que se assume como uma espécie de antologia da obra poética de Carlos Vaz.

Um livro que vem de tempos e lugares distantes e que caminha para tempos e lugares não menos distantes. A forma poética preferencial é a do poema longo e filosófico. O poema que nos obriga a refletir acerca das grandes questões da vida e das sociedades. A última parte do livro fala-nos de amor, de desejo e de sexualidade. É precisamente onde o autor se deixa enlevar pela palavra da emoção, esquecendo a sua dimensão filosófica. É, por isso, este livro, um livro de saudáveis contrastes.

Ainda por cima num contexto de diálogo transversal de culturas e de interculturalidades. Mas sempre, sempre com uma bússola ou uma estrela polar, indicando que nunca por nunca poderá ser esquecido o que tem de ser lembrado: as mulheres e os homens da Guiné Bissau têm uma ancestralidade imensa e muito rica, muito anterior às influências da língua portuguesa que a história proporcionou e, desde há mais de quinhentos anos, estabeleceram um relacionamento que teve nessa mesma língua portuguesa um eixo incontornável e essencial. Um eixo que caminha para as praias do futuro.
MÁRIO MÁXIMO

Lisboa, Junho de 2018”
Foto de Carlos Vaz.

Deixe uma resposta

Close Menu