MIGUEL DE BARROS: O ATIVISTA GUINEENSE QUE PRECISA CONHECER

MIGUEL DE BARROS: O ATIVISTA GUINEENSE QUE PRECISA CONHECER

Nascido em Bissau no ano de 1980, o jovem sociólogo Miguel de Barros foi reconhecido como uma das personalidades mais influentes da África Ocidental em 2019 pela Confederação da Juventude da África Ocidental (CWAY), acumulando reconhecimento e atuação internacional.

Já tendo ganhado, em 2018, o Prêmio Pan-africano Humanitário de Liderança em Pesquisa e Impacto Social, o diretor-executivo da Organização Não Governamental Tiniguena foca o seu trabalho nos jovens, seja em pesquisas, formação ou atuação junto à comunidade.

Em meio à sua participação no Systemic Alternatives Symposium, um evento internacional no Rio de Janeiro, que contou com mais de 60 ativistas de 38 países para discutir alternativas para um mundo em crise, Miguel de Barros dedicou tempo para falar sobre o seu intenso trabalho. “Gosto de viver com intensidade, compromisso, espírito crítico e procurar estar de forma autêntica em tudo o que faço.”, afirma o ativista. “Nunca trabalhei para algum prêmio e nem consigo orientar a minha postura em função de uma distinção que possa receber, mesmo compreendendo que traz mais visibilidade sobre as causas que projetamos.”, diz, ao focar o que considera primordial: o trabalho com educação política dos jovens.

Quem é Miguel de Barros?

Miguel de Barros é fruto das transformações sociais que ocorriam na África da década de 1980. O sociólogo nasceu em Bissau, capital da Guiné-Bissau, em 1980 — ano do primeiro golpe de Estado no país, que depôs o primeiro presidente após a independência, Luís Cabral, irmão do grande revolucionário Amílcar Cabral.

A sua infância foi passada durante os anos de forte implantação do neoliberalismo no continente e do Programa de Ajustamento Estrutural, que geraram um clima de mudança e revolta social. Guiné-Bissau passa por instabilidades políticas desde o seu início.

Um pouco mais tarde, já adolescente, uma forte mobilização internacional tinha lugar na África, com a queda de regimes autoritários e implementação de Democracia. O ambiente não seria outro, senão o da organização social.

“Todos esses elementos influenciaram a minha educação e socialização, contribuindo para que muito cedo me envolvesse com diferentes organizações de jovens: agrupamentos religiosos, organizações desportivas e cívicas, associação de alunos”, lembra. Isto fez com que Miguel começasse a participar da criação de movimentos juvenis, ou seja, iniciativas de jovens, lideradas por jovens e que tinham nos jovens o seu principal foco.

Estudos e atuação cívica

Um pouco mais tarde, Miguel foi para Portugal estudar, onde completou o curso de Sociologia no Instituto Universitário de Lisboa e obteve uma especialização em Planejamento. Desde então, além dos prêmios que o destacaram, ainda teve uma lista de conquistas: cofundou o Centro de Estudos Sociais Amílcar Cabral e fundou a Corubal, Cooperativa de Produção, Divulgação Cultural e Científica de Guiné-Bissau, ampliando sua atuação. Também é membro do Conselho de Pesquisa para Ciências Sociais na África (CODESRIA) e diretor-executivo da ONG Tiniguena — entidade que trabalha para a valorização e gestão da biodiversidade, visando a soberania alimentar e proteção do meio ambiente na Guiné-Bissau.

O estudioso se interessa pelos jovens por perceber neles a força necessária para ações coletivas que visem mudanças. Suas pesquisas e atuação na Tiniguena giram em torno da juventude, inclusive, para criar uma bagagem teórica que ajude a construção de políticas públicas no país.

Juventude na CPLP

Em linhas gerais, as pesquisas de Miguel de Barros mostram que a juventude da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa é exposta à pobreza e exclusão social, principalmente quando o assunto é habitação, educação, emprego e acesso ao crédito. Para ele, as políticas públicas têm se voltado para condições pontuais circunstanciais quando deveria ter uma visão mais holística.

Um dos destaques quando o assunto é juventude, segundo o ativista, é o debate sobre a delinquência juvenil. Para ele, há uma abordagem desvirtuada sobre o tema, que deveria analisar o problema real de um sistema que não propicia conhecimentos — profissionais e humanísticos — que formem um ambiente empoderador.

Alguns países de Língua Portuguesa

“As maiores possibilidades de construção de uma agenda juvenil mais robusta acontecem ainda num espaço de elite, nas universidades. No caso do Brasil, foi necessário adotar políticas afirmativas como a bolsa família e quota para os negros acederem ao ensino superior”. Miguel lembra que, mesmo assim, ainda é um país com altas taxas de genocídio de jovens pobres e negros. “Encontramos, ainda, casos como Cabo Verde, onde os jovens são expostos à marginalidade e violência e o Estado, ao invés de ter políticas públicas mais robustas, cria uma força especial de combate ao crime, fazendo deste país africano um dos com mais alta taxa de encarceramento juvenil na região”.

Quando fala-se em Portugal, o ponto central para Miguel de Barros é a existência de uma grande população jovem oriunda de ex-colônias que, mesmo hoje sendo portuguesa, ainda tem negado o exercício do seu direito pleno. “Vivem numa situação de guetização territorial, política e econômica e de marginalização institucional, trazendo à agenda pública a questão do racismo, xenofobia e de subalternização dessa população”.

O estudioso ainda cita os casos de Angola, Moçambique, Guiné-Bissau e Timor-Leste, onde jovens foram mobilizados e utilizados para a guerra civil devido à sua vulnerabilidade econômica e ao desemprego. Muitos foram integrados nas estruturas de defesa e segurança dos países sem que essas questões tivessem debate e consenso nacional — inclusive dos jovens.

Sociedade civil é fundamental para a Democracia

Do lado positivo, os jovens têm em comum a criatividade e a disposição para enfrentar os obstáculos que os movimentos sociais têm enfrentado. Muitos têm desenvolvido “iniciativas de empreendedorismo social, econômico, político e cultural com bastante inovação, sobretudo nos contextos de maior carência de serviços e equipamentos sociais”, afirma o sociólogo.

Para ele, as organizações da sociedade civil têm o papel fundamental de provar o nível de Democracia e liberdade de um Estado. “Quanto mais ativas, horizontais, plurais, comprometidas e profissionalizadas forem as organizações da sociedade civil, mais eficazes serão no cumprimento da sua missão e maiores serão as possibilidades das pessoas construírem autonomia de pensamento, estilos de vida e de pautarem a sua agenda pública”. Além disso, quanto maior for a capacidade de influência e impacto no poder público, maior, obrigatoriamente, será a transparência da gestão pública.

Uma das grandes vantagens da sociedade civil é que ela é ampla e tem múltiplas vocações. Há aqueles com perfil para consciencialização popular, os voltados para organização e protestos, os que têm vocação para mediação e os que monitorizam políticas públicas, entre outras características. Num estado de liberdade, as diferentes organizações agem juntas nas suas especificidades e ajudam a construir sociedades mais justas.

Atualmente, um dos principais desafios das organizações da sociedade civil para Miguel de Barros está relacionado com os dilemas de uma estruturação institucionalizada que em muitas ocasiões “tende a retirar-lhe o seu ativismo e, consequentemente, o distanciamento das suas bases de construção ideológica e de afetos perante os contextos de renovação geracional”.

A Guiné-Bissau atual

O associativismo juvenil assumiu um papel de destaque na época da liberalização política, colocando-se à frente das universidades enquanto espaço de encontro e consciencialização cívica dos jovens. Isso fez com que a juventude, hoje, tivesse um grande nível de consciência social, segundo Miguel.

Com o fim do conflito político militar de 1998 – 99, o boom do associativismo juvenil era o sinónimo da transição de uma mão de obra disponível sem possibilidades de conseguirem uma mobilidade social ascendente, mas procurando ganhar sentido de “utilidade pública”. As frustrações em relação ao futuro criaram as “bancadas”, nas quais a descrença no sistema político era elemento de repúdio à pobreza social. Nesse contexto surgem iniciativas de empreendedorismo jovem, já que os jovens buscavam visibilidade pública.

Hoje — após o golpe de Estado de 2012 — os jovens se organizam de forma mais espontânea, incluindo redes sociais, o que pode se potencializar com a melhoria da internet no país. A resistência traz aos jovens uma fase mais enérgica de intervenção e focam em assuntos como questionamento do papel dos servidores do estado, democracia e governança e mobilização política.

“Estamos numa fase muito interessante, em que o desafio da construção das novas formas de mobilização protagonizadas pelos jovens está a ser confrontada com desafios de encontrar, também, novas formas de representação e legitimação da governação democrática”. Ainda, um tema abordado que está a ser trabalhado diz respeito a novas formas de pensar mobilização de recursos, que não gerem dependências — seja de estado ou empresas.

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Fonte: Conexão lusófona

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