MAM-PÃ: DIVÓRCIO COM O PASSADO

MAM-PÃ: DIVÓRCIO COM O PASSADO

Tínhamos acabado de divorciar, temporariamente, com a estátua de Cabral que, de costas à nascente fita o poente, com ar sereno e determinante, no meio de plantas que cercam a retunda daquela praça improvisada. No céu encortinado brilhavam estrelas iluminando as casas, árvores, ruas e as esmeraldas que constituem a vila. Eu apreciava, sem dar por isso, essa cintilação natural, a partir da esquina de Comité de Estado onde estávamos, sentados, delicadamente enlaçados.

As gigantescas árvores vindas de densas e verdes florestas, as férteis e vastas bolanhas nuas e as pequenas savanas que ornamentam a via que liga Quinara, onde se injetou o embrião da luta revolucionária a Tombali onde ela se fecundou, despertavam em mim, sem nós, um remorso. Estávamos já, agora, no centro de Catio. Aqui rasgou-se a hierarquia que se havia implementado no hotel Bela Vista, em Buba, pois a dialética já se queria impor. Ninguém se aparelhou em ser garçon.

            A cidade estava vivamente movimentada, naquela noite de sexta-feira. Talvez por ser fim-de-semana da Páscoa, ou porque Patchi de Rima ia rimar o lamento de desespero sem tempero e a rica história sem glória daquela população em esquecimento. Eu estava, depois de um inspirador passeio motivado pelo lento soprar do vento, solitariamente, deitado no sofá e sentia um calor escaldante e um bafo húmido na sala de um aparthotel, visto que já não havia quarto onde podia dormir, sossegadamente, acordado, nos abraços e braços da pedra preciosa.

Os patriotas Belolats, Carinas, Ancelmos, Sharas, Wills e Hortências entre outros queriam, assistir ao concerto de jovem cantor, para libertar o cansaço de trabalho do dia, mas de repente perderam a vontade quando se lembraram, provavelmente, da ilha de Como, Guiledje, Cassaca… abandonados ao relento.

            Todos, talvez, estávamos furiosos, por isso espalhados. Mas não como manadas de bois em Cadique Bitna ou golfinhos, tubarões, salmões e bicas nas profundas e límpidas águas de Cassumba, nem como leoas esfomeadas nas savanas de Caboxangue já que de fome não nos podíamos queixar naquilo que é celeiro agrícola da Guiné.

Sábado, depois de um pequeno-almoço com molho picante de kselle bissonh e de termos assistido informações cruzadas e, sabiamente, emparelhadas por jornalistas da R e da T, que fizeram parar temporariamente a natureza circundante, numa fila, hierarquicamente organizada, desfilavam sete carros todo-terreno para Gã sala onde fomos viva e honrosamente recebidos com sons de tambor pelos populares. Na caçarola fervia uma vaca e arroz de pilão para animar a festa de novos militantes imbuídos de admiração e estima pela política humanista dos renovadores. De tanto dançar e cantar em Nalú senti uma secura enorme na garganta que, se fosse cronista comparava-a ao pó que se levantou deixando ruço e pálido os trovadores – wangam nghole1 disse a um jovem adolescente, alto, de cabelo crespo, olhos fundos, largos e negros como a sua própria pele negra e roupa gravemente rasgada que ao meu lado, também, dançava. Com muito prazer este hospedeiro deu-me um copo de água natural que de imediato esvaziei saciando, assim, a sede que me consumia por dentro.

Às dezanove horas, depois da festa e de jogo de futebol na tabanca de Gã-dua, seguimos, todos, cansados de descidas e subidas nas valetas da estrada, porém animados pela certeza de ir saborear salada de bentana de lagoa de Cufada, no restaurante rambazamba, onde rambazambámos, em Buba.

No hotel, acabara de perder o meu antigo quarto – número dois, à direita do de Will número um e o do Pedro número tês. Estávamos lado a lado e podíamos, desta feita, cochichar revendo a agenda do dia seguinte. Escoltado pelas protocolas que civilizadamente me acompanhavam imaginava, agora, como seria o meu novo dormitório perto do rio, eu que tenho medo de crocodilos. Seja o que Deus quiser, pensei. Havia uma grande escuridão como se dentro dela houvesse, também, outra escuridão. A água subia calmamente sem pressa, o tarrafe baloiçava e o vento abraçou-me reconhecidamente.

Quando abri a porta, o quarto estava tudo escancarado – uma cama grande e duas banquinhas – uma em cada lado, pequena mesa e uma cadeira, um guarda-fato, uma ventoinha de teto e uma casa de banho onde duas pessoas podiam comungar, suave e delicadamente, o mesmo banho. Era literalmente igual ao meu primeiro quarto.

Hoje, em Bissau, quando me lembro de Catio, só sinto saudades de subidas, descidas e poeira da sua estrada de terra batida sem pedras preciosas.

 

Vocabulário: 1.  wangam nghole : oferece-me água (na língua Nalú)

In Crónica de viagem a sul continental

 

Bissau, 16 de abril de 2017

//Mam – pã

 

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