ARMANDO CABRAL: «O MEU SONHO ERA SER O PRIMEIRO PORTUGUÊS NA NBA, AGORA CALÇO A MAIOR PARTE DELES»

ARMANDO CABRAL: «O MEU SONHO ERA SER O PRIMEIRO PORTUGUÊS NA NBA, AGORA CALÇO A MAIOR PARTE DELES»

Só calça sapatos com a sua assinatura. É com um par deles que Armando Cabral caminha por Lisboa, de férias, a poucas semanas de lançar a coleção outono-inverno. Tudo começou com um curso de passerelle quase feito por acaso. Seguiu-se a universidade e o curso de Gestão em Londres, deixando o futebol, o basquete e a arquitetura para trás. Entretanto, entregava, à quarta tentativa, um book numa agência de modelos. Seguiu-se uma carreira de manequim. Hoje já não quer desfilar, só abraça projetos com os quais sinta alguma ligação. É empresário, the shoe guy. Eis a história de Desejado Armando Cabral, 36 anos, 1,89 metros de altura, sapato 43 e um sorriso doce. Ou de como, quando uma porta não se abre, temos de bater outra vez. E outra.

Não passa despercebido. Armando Cabral tem 1,89, é esguio (quando foi para Londres estudar Gestão, paravam-no na rua para lhe dizer que tinha de ser manequim). Mas a altura é apenas um detalhe. O modelo e empresário caminha como quem desfila, numa elegância permanente. Faz de uma qualquer passadeira no centro de Lisboa uma passerelle. Por vezes sorri. Outras mantém uma expressão neutra, que parece ter sido esculpida por um mestre.

Quando lhe pedimos para posar para as fotografias, torna-se parte dos lugares – seja num banco de jardim, junto à parede de um palacete antigo, ou numa garagem feita estúdio. É um camaleão humano que se movimenta à nossa frente em gestos lentos. Não se pense, porém, que aqui há construção. Tudo parece vir de dentro: com a mesma franqueza com que diz que chorou quando viu feitos os primeiros sapatos da sua marca, diz também que o que lhe dá prazer são as coisas mais simples: quando regressa a Portugal, «adora» sentar-se no Parque Central da Amadora a ver as pessoas a andarem de um lado para o outro porque é «uma conexão» com a infância e o lugar onde cresceu.

Armando Cabral, 36 anos (mais um em novembro), está numa fase de transição. Depois de 15 anos como modelo, a vender os sonhos dos outros, agora é empresário, manequim a tempo inteiro da sua marca de sapatos, que quer tornar full house, com roupa e acessórios para homem. Na bagagem, tinha a carreira para grandes marcas internacionais, como Calvin Klein, Louis Vuitton, Alexander McQueen ou Balmain (campanha que fez com o irmão, também modelo, Fernando), e um curso de Gestão. Na bagagem emocional, uma mãe costureira. Trunfos (uns mais visíveis do que outros) que transformou em negócio.

Fala em português mas por vezes faltam-lhe as palavras, até porque «pensa em inglês». Mas em breve isso poderá mudar, pois pretende mudar-se para Lisboa com a mulher e os filhos.

Em 2008 fundou a marca de sapatos para homem, com lojas em 15 países. Desde 2015 tem uma loja na Embaixada, no Príncipe Real, em Lisboa. Foi ali que nos recebeu, durante um período de férias. Falou em português, mas por vezes faltavam-lhe as palavras, até porque «pensa em inglês». Em breve isso poderá mudar: planeia mudar-se de Nova Iorque para Lisboa com a mulher, a também modelo Krystle Wilson, e os dois filhos, Lukas, de 5 anos e Lily de 2 anos e meio.

Porque é que o Cristiano Ronaldo não precisa de apresentações e o Armando Cabral ainda precisa de apresentações em Portugal, apesar do sucesso nas passerelles de todo o mundo?

[risos] O Ronaldo é o Ronaldo… Não sei. Eu acho que as pessoas me recebem bem em Portugal mas é uma cultura diferente. Nos Estados Unidos tenho falado com muitas pessoas que me param na rua, acredito que aqui em Portugal as pessoas conhecem o meu trabalho mas é uma coisa cultural. E há uma grande diferença: eu não sou o Ronaldo. O Ronaldo é o Ronaldo.

Ao fim de 15 anos de carreira, de passerelle, como se apresenta?

Eu gosto de me apresentar como empresário. Estudei Gestão e criei a empresa onde sou diretor criativo. Já desenhei os sapatos, mas, como houve uma expansão da marca, já não sou eu que desenho.

Ainda se lembra de quando viu os primeiros sapatos Armando Cabral?

Chorei. Chorei muito. Foi uma coisa surreal. Eu estava em Paris, tinha chegado de Nova Iorque. Fui fazer o desfile da Louis Vuitton. Entretanto, cheguei ao hotel e recebi uma encomenda. Abri a caixa e eram os primeiros protótipos com o meu nome. Foi uma sensação incrível. Foram muitos meses, anos, de preparação. Ver uma ideia que só estava na minha cabeça tornar-se um objeto foi muito marcante. Não vou esquecer-me para o resto da minha vida.

E vai ficar-se pelos sapatos?

Ainda temos muito que fazer para a marca. Ainda temos oportunidade de criar outras linhas, e até uma linha feminina, e acessórios, por exemplo. Mas eu acredito que tudo tem o seu tempo e vamos passo a passo. A ideia geral da empresa, da marca, é ser full house, desde roupa a acessórios.

 

Os sapatos Armando Cabral são fabricados em Itália. Pensa em fazer uma coleção em Portugal?

Sim. Há cerca de seis meses fizemos uma pequena produção em Portugal, de sneakers. Estamos a explorar a ideia de produzir cá. Para mim é importante dar a conhecer o made in Portugal e representar a marca como português.

Quem calça os sapatos Armando Cabral?

Armando Cabral é para um homem que conhece o seu estilo próprio, que viaja, que trabalha, que considera o conforto e a qualidade acima da quantidade. Nos EUA temos clientes como o ator Hugh Jackman, jogadores de basquete como o Carmelo Anthony. Também já calçámos a Rihanna.

A experiência que teve enquanto modelo, nas grandes marcas por onde passou, todos os países, essas influências estão neste projeto?

Totalmente. Eu costumo dizer que uma vantagem que eu tive como modelo foi essa, penso sempre em mim como consumidor. Também tive oportunidade de perceber o negócio da moda, porque nunca fui o modelo que só aparecia para fazer o trabalho e ir embora. Eu falava com os designers. Lembro-me muito bem das conversas que eu tive com o Marc Jacob, com o Paul Smith, com Paul Helbers, que era o designer da Louis Vuitton, com o Dries van Noten… Foi assim que eu fui aprendendo. Ajudaram-me bastante no processo inicial porque falei com eles quando estava a pensar criar a marca.

Alguma vez se sentiu discriminado enquanto modelo por ser negro?

Não… eu vejo essa situação de forma diferente, eu não sou visto como um

modelo negro…

É visto como um modelo mais exótico?

Talvez, sim. Nunca fui visto dessa forma [negro] porque eu não tenho afro, não sou assim tão musculado. Eu era o modelo que vendia fatos na J. Crew. Ainda hoje as pessoas dizem: «Se queres vender um fato tens de chamar o Armando.» Fui a cara deles durante muitos anos.

Está de férias em Portugal. Como olha para Lisboa nestes regressos?

Lisboa está completamente transformada, de uma forma muito boa, pelo menos do meu ponto de vista. Tenho ouvido algum descontentamento das pessoas locais. Quando há uma transformação, há sempre um lado bom e um lado mau, e a cidade está a ficar um bocadinho cara. Mas acho que fez muita coisa boa à cidade. Lembro-me do tempo em que as pessoas confundiam Portugal com Espanha. Agora já não acontece. Tenho vários amigos que nunca viveram em Portugal, nunca estiveram em Lisboa e estão a mudar-se para cá. Dá-me muito gosto voltar a Lisboa e ver uma grande vibração em Lisboa e pessoas de todo o lado.

E morar em Lisboa?

Está nos planos, mas não sei para quando. Tenho vindo a investir imenso nessa área porque sei que vai chegar o dia em que vou juntar as minhas coisas e venho para cá. Mas tenho muita coisa para concretizar nos EUA. Para já, vou fazendo a ligação entre Portugal e os EUA.

«Nunca fui visto como o modelo negro porque eu não tenho afro, não sou assim tão musculado. Eu era o modelo que vendia fatos na J. Crew.»

Nunca voltou à Guiné-Bissau?

Voltei pela primeira vez em 2015 a convite do antigo primeiro-ministro da Guiné, Domingos Simões Pereira. Ele esteve em Nova Iorque e viu uma campanha da H&M que eu fiz, que estava em Times Square, e alguém lhe disse que eu era guineense. Ele pediu para me conhecer e a embaixada entrou em contacto comigo. Estivemos à conversa e eu disse que nunca tinha voltado à Guiné. Eles fizeram-me um convite oficial e fui, mas foram só três ou quatro dias. Fizeram-me uma homenagem e não tive oportunidade de ver muita coisa. Estou a pensar voltar com mais calma.

Sai da Guiné com três anos. Calculo que as suas memórias estejam em Portugal, na Amadora, onde viveu até sair para o mundo. Como é que foi esse processo?

Sim, é verdade… Uma das minhas irmãs, a Maria do Céu, era modelo e desafiou-me a fazer um curso e eu fui fazer uma aula de passerelle. Ao final disseram-me: «Armando, tens aqui uns toques que se calhar podias ser modelo, já pensaste nisso?» Eu achei na altura que era uma forma de me sacarem dinheiro, porque eu tinha de pagar o curso e na altura não tinha como [risos]. Mas depois falei com a minha irmã e disse-lhe que gostava de fazer o curso. Ela pagou e eu fiz o curso. Uma semana depois, tive de ir para Inglaterra estudar. Quando cheguei lá é que as coisas mudaram. Toda a gente vinha ter comigo na rua em Londres, «és modelo, não queres ser modelo?»

Porque é que na rua lhe diziam para ser modelo? Por causa da sua altura?

Eu acho que sim, e porque era magrinho, não sei dizer. Mas as pessoas olhavam para mim na rua, achavam que eu podia ser modelo e eu ia à agência mas eles diziam «não».

Quando o Armando foi rejeitado a terceira vez pela agência, foi ver o que outros modelos parecidos consigo vestiam e apresentou um book como esses modelos.

Exatamente. Das outras vezes eu ia, ouvia «no, thank you». À terceira vez que eu fui à mesma agência [Nevs Model], resolvi perguntar o porquê. Disseram-me que o book não estava à altura, que precisava de trabalhar um bocadinho mais. Achei que estava ali a oportunidade de fazer alguma coisa. Cheguei a casa, fui para o site deles e fui vendo alguns modelos que eu percebi que estavam a trabalhar, guardei algumas fotografias e arranjei um trabalho para juntar dinheiro. Ia comprando as roupas todos os meses até conseguir cinco looks. Depois juntei mais dinheiro para pagar ao fotógrafo. Fiz a sessão, pus as fotos no book, fui à agência e fiquei. Uma semana depois de ter assinado, todas as grandes agências onde eu já tinha ido começaram a interessar-se. Só fiquei um mês na Nevs Model.

O que guarda do trabalho de passerelle com as grandes marcas, os grandes modelos, fotógrafos?

A adrenalina que eu sentia antes de sair e de estar nesse espetáculo. Foi uma experiência única, é uma preparação de meses que muitas das vezes só dura 30 minutos ou menos. Nós vendemos sonhos… Muitas das vezes somos selecionados porque acham que nós conseguimos interpretar algo dessa coleção.

Mas agora não faz muita passerelle…

Não faço por opção própria, porque acho que hoje em dia tenho muita coisa na mão, o negócio, coisas pessoais, e porque é uma geração completamente diferente da minha. Continuo a receber convites para fazer desfiles mas já não me apetece. Prefiro fazer uma coisa com que me identifique, uma sessão fotográfica, uma campanha,… estou a contribuir muito mais do que ir por 30 minutos e não ter uma ligação direta.

«Eu sou o penúltimo de sete irmãos. Tenho cinco irmãs e os meus pais estavam à procura de um rapaz. Por isso o meu nome é Desejado. Desejado Armando Cabral.»

Quando a sua irmã o desafiou para ir à escola dela, que idade tinha?

18 anos.

Que Armando era esse?

Tchhhh [risos]. Esse Armando era… um miúdo mais descontraído. Na verdade, na altura não queria ser modelo. Viemos de uma zona mais humilde e a nossa forma de nos divertirmos era agarrar o desporto. O meu sonho era ser o primeiro português a jogar na NBA mas percebi logo que isso não ia acontecer. Agora conformo-me porque calço a maioria dos jogadores da NBA. Sou amigo de alguns e nas férias jogo com eles [risos].

O que faziam os seus pais?

O meu pai foi administrador, na altura em Bissau, foi diretor do aeroporto. A minha mãe foi costureira. Por acaso, nem percebi isso, mas também tem que ver com o meu lado criativo, foram tudo coisas que eu vivi em casa.

E em relação aos seus sete irmãos, é o mais novo, o mais velho?

Eu sou o penúltimo. Depois vem o Fernando. Tenho cinco irmãs. Aliás, pelo que eu tenho ouvido, eu é que sou a razão pelo qual somos sete. Porque eram cinco raparigas e os meus pais estavam à procura de um rapaz. Até o meu nome é Desejado. O meu nome no documento é Desejado…

No bilhete de identidade?

Sim!

Armando Desejado?

Não. Desejado Armando Cabral.

Não usa o Desejado?

Não. Em jovem odiava esse nome. Lembro-me de que, quando fiz 18 anos, chamaram-me para a formação por causa do serviço militar obrigatório. Eu já estava em Londres na altura e vim cá. Eles chamam os nomes em voz alta e, quando disseram Desejado Armando Cabral, toda a gente olhou para mim para ver quem era o desejado. Fiquei tão envergonhado… Hoje dou muita importância ao nome porque sei o porquê.

A sua mulher também é modelo. Conseguem andar na rua descontraídos?

Consigo… Eu não sou o Ronaldo nem quero ser. Claro que em Nova Iorque é uma cultura americana, eles são simpáticos, aproximam-se… Eu tive um contrato com a J. Crew, com que trabalhei sete anos. Uma vez fui para Salt Lake, ao pé de Las Vegas, e vem um rapaz que me diz «you are the J. Crew guy, oh my God». Fiquei admirado. Em Nova Iorque eu percebo, em L.A. eu percebo, agora em Salt Lake…

Continua a ser o J. Crew guy?

Agora é mais o shoe guy. E eu gosto muito. As pessoas falam comigo, dizem «gosto muito dos teus sapatos, tenho uns sapatos teus». É muito bom.

E quem é que o shoe guy gostava mesmo de calçar?

O Obama.

O que é para si o luxo?

Luxo é uma oportunidade de adquirir uma coisa que nos identifique, mas não tem de ser caro. Antes o luxo era comprar uma Gucci ou uma Versace. O luxo é poder identificar-se com as coisas que nos tocam. E pode ser um sapato como pode ser o luxo de estar com os amigos. Ou o luxo de poder acordar e ter água potável em casa. Isso é um luxo.

Fonte: Diário de Noticias

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