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DORMI ANDANDO

8 Agosto 2017 Opinião


CRÔNICA – AUSÊNCIA DE PATRIMÔNIOS

 

O barco estava a andar cada vez mais devagar. Todos, ansiosamente, talvez, imaginávamos e esperávamos uma recessão calorosa e fantástica como era, até aqui, o hábito no interior do país. Era início de crepúsculo, não era ainda “Silêncio das gaivotas1. A cidade de Ntin2 já nos tinha perdido de vista. Havíamos ficado apenas, nessa tarde cinzenta, com o mar vasto e o céu azul imenso que, de tão longe, nos seguia.

Tranquilamente, eu, observava, com grande entusiasmo e admiração o levantar e o baixar ondulado das águas límpidas daquele mundo verdejante. O barulho doce e encantador que o seu arrebentar, no alumínio ferrejado, provocava, fez-me lembrar os versos épicos dos Lusíadas quinhentista e a melodia novecentista e irresistível dos “Super Mama Djombo3”.

A minha alma, porém, suavemente, libertara do corpo, e, dormiu voando, flutuava como um pássaro, de olhos negros, abertos, contemplava o céu aberto, assistindo, desta feita, a maravilhosa e natural cintilação das estrelas daquela noite jovem.

Ao meu lado estava, de pé, a conversar com uns homens com quem embarcamos, as dezasseis horas, no cais de pindjiguite, em Bissau. Maurício era um homem moderado e muito simpático. Ele sabia relacionar-se com as pessoas, talvez, por ter aprendido a viver junto, no ensino básico e, agora, ser professor e um apreciador do azul luminoso e cheiro da praia de Varela.

“Não podia adiar mais a palavra 4”. Desato-me, por isso, a denunciar.

O barco quarto centenário de Cacheu estava cheio, aliás superlotado, pois era sexta-feira, muita gente ia passar fim-de-semana para refrescar, na antiga capital, a mente estressada. Alguns já haviam começado a divertir-se improvisando e a entoar cânticos para outros que, desafinadamente, baloiçavam pó di kurpu. O ambiente estava, voluntariamente, agradável e animado. No mar, algumas garrafas e latas vazias boiavam. Só eu, talvez, estava, acredito, nessa “Noite de insônia 5 iluminada pelas estrelas a conversar com estrelas enquanto a ilha, nosso destino, profundamente dormia.

Tal como a distância escura, o barco começara a escurecer-se. O seu motor parara, as luzes apagaram-se, apenas a claridade das estrelas iluminavam.

De repente senti a minha alma, brutalmente, entrar em mim, quando um altíssimo e lancinante clamor ensurdecedor de uma mulher, que, pensei fosse de alegria causada pelo conteúdo das garrafas esvaziadas por ela que no mar boiavam, atingiram acidental e gravemente o íntimo dos meus ouvidos. O meu ser, sem mim, ficou, ainda, mais escuro que a própria noite escura, quando um homem de um olhar penetrante, de um coração acolhedor, que julgo ser Nelson exclamou – “Nô ka limpo inda6”. No meu ego, não só estavam Condutos, Hucos, Proenças, Silas e Tchecas, mas também Camões, Vieiras e Saramagos.

Silenciosamente, sem interrupção, a água entrava de todos os lados do batel. Tinha chegado, literalmente, aos meus joelhos. As lágrimas que dos meus dois olhos brotaram fizeram subir, de pressa, o nível médio do mar. Algumas cargas sentiam-se atraídas pelas ondas brancas e, já, sem resistência se alijavam. Aqui rasgou-se a diferença que se achava haver entre quinhentos e quinhentos. Salva quem puder – “Cada nha e na s’iló7”.

Aflitos, cada um dos viajantes, queriam transformar-se em golfinho, peixe voador, talvez, de Santo António, ou em ave de rapina e voar o mais alto.

Íamos, todos, sem estes célebres porta-vozes, irremediavelmente ao fundo e, sem um gesto, sem uma voz, nós nos conformamos. Tudo o que em nós ainda era ânimo desfaleceu. Já tinha, portanto, parado de pensar na recessão com que no início imaginava, pois “tanamo já havia fenhido8”.

Às sete horas, do sábado, fomos salvas por uma canoa. Na praia estava um bote para nos levar à cidade. Eu não pude acreditar. Gritei, muito alto, dentro de mim – sair quase morto do barco logo a seguir embarcar numa piroga? Credo! Queria desafiá-los negando, mas acabei por aceitar quando rapidamente lembrei “si fere ala, fere bonde co fere9.”

Quando cheguei a Bolama, às dez horas, já era tarde, tarde de mais, senti remorso. Não havia Paulo Caiango, Lúcio da Silva nem antiga capital, apenas a ilha sem Bolama.

  1. Título de livro de poesia de Francisco Conduto de Pina; 2. Nome tradicional da cidade de Bissau; 3. Orquestra guineense do compositor Adriano Ferreira Atchutche; 4. Referência ao livro de poemas de Hélder Proença publicado em 1982; 5. Livro do poeta e jornalista Tony Tcheca; 6. Poema de Nelson Medina, o de SOS, do seu livro “Sol na mansi”; 7. Cada um por si (na língua pepel); 8. Livro de Huco Monteiro, Sociólogo e escritor. Significa – a verdade há-de sobrepor. 9. Expressão usada pelo, maior romancista guineense, Abdulai Silá, no seu romance “Mistida”. E significa quando não houver saída, a má saída é saída.    

// Mam – Pã

Bissau, 10 Junho de 2016


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Comentários

  1. Fidélis Tonhá   On   10 Agosto, 2017 at 13:38

    Força. Tum faiéh que banhn. Nhin ndjaquei- ah ngwonte ten all mat- ne til yaquene nten.
    Que Deus lhe dê mais sabedoria.
    Parabéns

  2. Fernando Embana   On   10 Agosto, 2017 at 17:17

    E verdade que a reflexao nao falta…porque a nossa sociedade esta “doente “,daí as minhas congratulacoes…força


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